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A elite mal informada: réplica às fabulações de Monica de Bolle

Eduardo Fagnani (1)

Este artigo é uma réplica ao texto de Monica Baumgarten de Bolle (“Mentira tem perna curta”), recentemente publicado na página 3 da Folha de São Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/189886-mentira-tem-perna-curta.shtml).

Acreditando nos “princípios, valores e missão” que orientam a redação deste jornal – onde se lê, por exemplo, “defesa da liberdade de expressão, independência, espírito crítico, pluralismo e apartidarismo” –, submeti esta réplica aos crivos da Coordenação de Artigos e Eventos da Folha de São Paulo. “infelizmente, não nos será possível publicá-lo, diante da nossa disponibilidade limitada de espaço”, foi a resposta recebida.

Para não privar os leitores desta modesta contribuição ao debate democrático de ideias, num momento crucial em que dois projetos antagônicos para o país estão em disputa, resolvi publica-lo neste espaço.

As fabulações da diretora da Casa das Garças, em seu contorcionismo para defender a indefensável política econômica e social do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), inicia-se com a afirmação: “há quem ache que mentira repetida à exaustão torna-se verdade absoluta”.

De forma correta, afirma que nos anos 1990, o país fez o Plano Real, que levou a inflação de “inacreditáveis 900% ao ano para um dígito”. Mas, essa é apenas uma das faces da verdade. A outra, omitida, são os abissais custos econômicos e sociais implícitos no referido programa de estabilização.

Na época, a opção passiva pelo modelo liberal era justificada pela convicção de que “There Is no Alternative”. O Estado nacional foi demolido em consequência das privatizações e do endividamento crescente. A abertura comercial e a valorização do câmbio destruíram a indústria e desequilibraram as contas externas. A saída foi privatizar o patrimônio público e atrair o capital financeiro especulativo e volátil para acumular reservas cambiais. Para isso também elevaram os juros básicos da economia para patamares obscenos (superior a 40% ao ano em alguns momentos), ampliando o regozijo dos donos da riqueza que detêm os títulos públicos indexados à taxa Selic.

Os gastos com juros chegaram a patamares superiores que 8% do PIB (hoje está em torno de 4,5%) em alguns anos. Para o leitor ter uma ideia da inviabilidade de qualquer política social, observe-se, por exemplo, que isso representa quase 10 vezes mais que os gastos federais realizados pelo governo federal em saneamento ao longo dos oito anos dos governos de FHC.

Entre 1996 e 2003, a participação do gasto social federal na despesa total do governo central declinou dez pontos percentuais (de 60 para 50%), enquanto a participação das despesas financeiras cresceu 16 pontos (de 17 para 33%).

A dívida pública líquida dobrou em oito anos (de 30 para 60% do PIB). O aumento das despesas com juros motivou elevação da carga tributária (de 27% para 32% do PIB, entre 1995 e 2002). Sim, a carga tributária sobe significativamente na gestão FHC e não na gestão do PT, como se quer fazer crer.

Políticas econômicas e sociais são faces da mesma moeda. É fabulação pretender que “nos anos 1990, o Brasil instituiu os programas sociais que, junto da estabilização macroeconômica, começaram a tirar milhões de pessoas da miséria”. É verdade que com a estabilização monetária, entre 1994 e 1995, a pobreza extrema caiu de 13,6% para 9,3% da população total. Mas o contorcionismo tucano não informa que a taxa de pobreza permaneceu próximo desse patamar até 2002. Em 2013 chegou a 3,6%, quase três vezes menor que a herança da “social democracia” democrata-tucana.

Para a doutrina neoliberal, a “política social” se restringe aos programas focalizados nos “pobres”, pois são baratos (0,5% do PIB) e, portanto, funcionais para o ajuste macroeconômico. A busca do “bem-estar” social prescinde da geração de emprego, valorização do salário mínimo e políticas sociais que assegurem direitos na direção de uma sociedade homogênea.

Adepta desta visão, a diretora da Casa das Garças não menciona a destruição de 1,2 milhões de empregos formais entre 1995 e 1999. Ou ainda que, durante os governos de FHC, a taxa de desemprego subiu de 8,4 para 12,3%; a participação dos salários no PIB declinou de 35,2 para 31,4%; e a renda domiciliar per capita, a desigualdade social e o PIB real per capita ficaram estagnados.

Também não há menção aos retrocessos impostos nos direitos trabalhistas, sindicais e previdenciários, para citar dois exemplos. Nesse último caso, para abater os ditos “vagabundos”, o Brasil passou a ser o campeão mundial no quesito severidade das regras de acesso da previdência social.

“E a história de o país ter quebrado três vezes?” Sua leitura é dissimulada e maledicente. Em 2001, quando a campanha eleitoral apenas engatinhava, culpa o “efeito Lula” pela quebradeira. Mas mentira tem perna curta. Basta ver que o chamado “Risco Brasil” durante os governos FHC foi sempre superior a 523 pontos, atingindo 1248 e 1445 pontos em 1998 e 2001. Em 2003 caiu para 468 e hoje está em torno de 201. Fica a pergunta: quando um país pede socorro ao FMI, o que significa? Que navega em céu de brigadeiro ou que quebrou? O leitor que julgue.

Finalmente, a autora afirma haver “quem subestime a capacidade de reflexão das pessoas” e fazendo “troça da inteligência alheia”. E sentencia: “o Brasil verdadeiro sabe pensar por si”. Embora não seja ponto pacífico dentre as lideranças do PSDB, nesse ponto concordamos. E foi o que fez o Brasil nos últimos anos.

(1) – Professor do Instituto de Economia da Unicamp, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho (CESIT/IE-UNICAMP).

(2) – SCHWARZ, R. (2013) A situação da cultura diante dos protestos de rua (23 de julho). (http://boitempoeditorial.files.wordpress.com/2013/07/roberto-schwarz.jpg)

10 pensamentos sobre “A elite mal informada: réplica às fabulações de Monica de Bolle

  1. A “casa das Garças” também é ninho de tucanos, este jornal já se posiciona a alguns anos como uma ferramenta de comunicação que serve ao modelo político neoliberal, uma pena este jornal que durante muito tempo foi referência para formação de pensamentos diversos, viver esta crise de identidade perdendo a essência que no início da década de 80 foi sua marca.

  2. A grande diferenca entre o relacionamento com o FMI dos governos de FHC e o de Lula e’ que no caso do governo de Lula nao foi necessario tomar emprestimo e, adiante, foi o Brasil que colocou milhoes de dolares no Fundo Monetario.

  3. Eu continuo insistindo que não foi fácil nossa luta para construir o PT, nos anos 80. Um partido que nasceu do trabalhador ou seja de baixo para cima, pelo contrario dos outros. Por isso que a estrela brilha.não tínhamos um fusca para ajudar. Fazíamos a cola num panelão da dona menininha de araruta. Saiamos com escada nas costas, balde de cola na mão e cartazes onde era permitido na época colar os cartazes do partido e candidatos nossos. Quantas vezes a polícia nos fez correr e até apanhamos de empregados dos candidatos da direita. Não foi fácil. Eu tive o prazer de ter convivido com esta realidade em Minas Gerais, meu estado e no Paraná onde moro ainda hoje. Naquela época eu todos os dias prendia a bandeira do PT num cano e amarrava em cima da casa. Quando escurecia retirava dali ,guardava para o sereno não estragar e também ficava caro fazer outra bandeira. No dia seguinte, cocava de novo. E assim foi nossa luta. Não só minha, mas de muitos militantes na época. Íamos de casa em casa tentando convencer o povo a aderir nossa luta, que na maioria das vezes era nas vilas. E muitos dizia: é o da bandeira vermelha. Este não. Este é do comunismo. Se o PT ganhar eles vão dividir nossa casa e vão queimar a bandeira do Brasil. Veja só como os poderosos , a direita conservadora fez na cabeça desses pobres que na época não tinham nem energia elétrica. Não foi fácil convence los . Só com o passar do tempo. Perdendo as eleições. Entrava político, saia politico , e o povão na miséria. Nada mudava. Mas nós incansavelmente ré começava nos tudo de novo. Foram 3 eleições pro Lula chegar lá . O povo acordou e viram estavam sendo enganados. Mas chegamos lá. Quantas vezes chamaram me de comunista. Para vocês terem ideia , fui uma vez num aniversário na casa de um parente e ele queria que eu tirasse um Boston do PT que estava na minha blusa. Portanto, não estou endeusando o PT. Ele chegou no poder. Houve falhas? Sim! Pois o ser humano é falho. Não estou justificando os erros que surgiram e que todo partido erra. Entraram outras pessoas novas e ninguém tem bola de cristal para imaginar o que aquela pessoa possa agir de má fé. Sei que é até um absurdo esta comparação que vou fazer. Até um dos 12 apóstolos de Cristo o traiu. E nem por isto o Salvador o condenou. Por favor, não estou dizendo que se um sair matando por aí, temos que aceitar. Pena que os poderosos não engolem ser governado por alguém que não ė da sua classe ou até mesmo para muitos deles inferior. Mas fomos a luta. Vencemos. Fizemos a diferença. O país cresceu juntamente com o povo e também com todos os partidos ė claro. E nem por isso não estou dizendo temos que perpetuarmos no poder. Pelo contrário, vivemos numa democracia. Saudações petista! E viva Dilma 13.

  4. O autor deve contextualizar o cenario enfrentado pelo Pais nos anos FHC, deveria lembrar seus leitores das grandes crises economicas pelos quais o Brasil passou, levando-o a procurar o FMI, o que no fim das contas nao se assemelha a uma “quebradeira generalizada” como quer fazer crer dona dilma. Um pouco de honestidade intelectual nao faz mal a ninguem,

    • Sr. Ricardo, as crises que levaram o Brasil ao FMI foram de credibilidade do próprio Brasil,ou seja, de responsabilidade de nossos governantes à época, provocadas por atrasos de pagamento da Argentina, das Filipinas e outros países de baixa expressividade mundial.
      Desde 2008, o Mundo vive uma severa crise, com reflexos em países como EUA, França, Itália, Grécia e Espanha, que reduziram inclusive o ritmo de crescimento da China, outro de nossos maiores mercados de commodities, tida como a maior crise desde o grande “Crash” de 1929.

  5. Pingback: Réplica que a Folha de São Paulo não publicou | Cidadania & Cultura

  6. Mas precisamos ver qual a relação do autor com o atual governo, precisa ver a imparcialidade.
    Essas questões são iguais aquelas advocatícias. Se você pedir para uma pessoa competente do ponto de vista intelectual que seja ligada ao PSDB encontrará outro texto tão rico quanto o do Fagnani, do ponto de vista dos dados pró oposição hoje.
    Calixto

    • Sr. Jair, note que o artigo está recheado de dados oficiais da economia. E mesmo que o texto fosse enviesado, não há como negar que hoje o desemprego é menor, o salário mínimo tem maior poder de compra, o PIB triplicou…
      Sem esquecer, ainda, que tais resultados se mantem apesar da crise do Subprime (2008/09), cujos reflexos são sentidos até hoje em países como EUA, França, Espanha, Grécia, Alemanha, Italia etc.

  7. Realmente decepcionante saber que um jornal que se diz publicar posições diferentes não tenha dado espaço para a resposta ao artigo “Mentira tem perna curta”. O legado positivo do PT será sempre os investimentos e avanços na seara social. Como analista de políticas públicas, é sempre um prazer analisar os programas implementados nos últimos 12 anos. Contudo, essa história de afirmar que o Brasil quebrou 3 vezes durante o governo FHC me incomoda muito, exatamente pela falta de clareza das notícias sobre esse tema, principalmente para um público não-economista. Um país quebra quando não consegue honrar suas dívidas. Solicitar empréstimo ao FMI não é quebrar. Pelo contrário, ter acesso a créditos de standby significa que o país ainda goza de alguma credibilidade. Simplificar essa situação para de “quebra” desinforma e não contribui para o debate. Gostaria muito que alguém abordasse os condicionamentos impostos pelo FMI nos três empréstimos contraídos. Isso sim seria abordar o tema com a devida cautela o que, sinceramente, nenhum texto de esquerda ou direita soube explicar até momento. O primeiro grupo apenas afirma que quebrou o país, o que não é correto afirmar do ponto de vista econômico, enquanto o segundo simplifica que foram meros empréstimos, esquecendo-se de elencar os condicionamentos liberais e restritivos a investimentos exigidos pelo FMI. Enfim, no aguardo de um texto que aborde esse tema sem viés político e que saiba passar uma informação mais clara para o público leigo. Quero informação, não interpretação ideológica dos fatos.

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